quarta-feira, 12 de março de 2008

Da amizade

"Era bom saber – continua, como se discutisse consigo próprio –, se existe amizade realmente? Não me refiro àquele prazer ocasional que faz com que duas pessoas fiquem contentes porque se encontraram, porque num determinado período das suas vidas pensavam da mesma maneira sobre certas questões, porque os seus gostos são semelhantes e os seus passatempos iguais. Nada disso é amizade . Às vezes chego a pensar que essa é a relação mais forte na vida... talvez por isso seja tão rara. E o que há no seu fundo? Simpatia? É uma palavra imprópria, sem sentido, o seu conteúdo não pode ser suficientemente forte para que duas pessoas intervenham em defesa um do outro nas situações mais críticas da vida... apenas por simpatia? Talvez seja outra coisa?... Talvez exista uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas? [...] Naturalmente, a amizade não tem nada a ver com a inclinação doentia de algumas pessoas que procuram uma satisfação disforme com pessoas do mesmo sexo. O Eros da amizade não precisa do corpo... longe disso, incomoda mais do que o excita. Porém não deixa de ser Eros. Eros está no fundo de todos os afectos, de todas as relações humanas. [...]
As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas que essa intimidade é uma espécie de amizade."

Sandor Marai, as velas ardem até ao fim
( Aquele livro onde volto sempre)

3 comentários:

Narrador disse...

Em virtude de ter visto por aí um outro utilizador com o nick "narrador", coloquei a minha foto no meu perfil, para sermos distinguidos.

Este excerto está muito bom. Ando para ler este livro há que tempos. Este e o outro do mesmo autor "A Mulher certa" do qual tenho ouvido os mais dignos elogios. O tempo não dá para tudo...Tenho de remar, remar mais.

Fiquei pensativo quanto ao conteúdo. Dá mesmo que pensar.

Anónimo disse...

Conheço,em traços largos,a biografia de Sandor Marai, mas não a sua obra literária.
Lendo apenas o trecho apresentado permite-nos sondar a profundidade do seu pensamento,ao mesmo tempo que se capta,na sua essência,uma certa melancolia...
Não sendo psicólogo,nem querendo meter a minha foice em seara alheia,terá sido ela, a melancolia,que ele elegeu como companheira,quem o levou a partir,de forma trágica,de viagem...para a outra margem...

"pelas palavras vos chego,pelas palavras me exponho..."
A expressão é sua.

Continue a escrever assim, até que a voz lhe doa,a voz da alma, é claro...

Afaste as cortinas da sua janela;percorra com o olhar as muralhas do seu castelo,sempre tão presente no seu coração; se, sobre elas, avistar uma moura encantada, perdida no tempo,mande-me um mail e eu irei socorrê-la !!! Estou a referir-me á moura...

:-* José

Dulce Alves disse...

Um escritor húngaro que me desperta curiosidade há algum tempo, mas que ainda não ousei ler. (Tenho andado pelos clássicos...)
Mas dada a beleza do excerto, vai com certeza subir na (extensa) lista de livros a ler ;)