terça-feira, 18 de março de 2008

Cativa-me

(...) E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um menino inteiramente igual a cem mil outros meninos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

Antoine de Saint Exupery

3 comentários:

Narrador disse...

E mais à frente, o segredo...

"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos..."

Lindo!

Anónimo disse...

Obrigado, pela torrente de emoções que inundou todo o meu ser e fez vibrar o recôndito da minha alma.
Tragados pela voragem do tempo e cegos pelas nossas crises existenciais,ignoramos a beleza das coisas simples que nos envolvem.
Se, do outro lado da vida,"memória deste mundo se consente", Antoine Exupery ficará contente, por aqui ter sido recordado.

Você tem um geito especial para "jogar" com as emoções.Daria uma boa psicóloga. De certa forma já o é...

:-* José

Dulce Alves disse...

"Tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos" - talvez a lição mais interessante d'O Principezinho, um livro que consegue ter a proeza de através de uma história simples revelar tamanhos ensinamentos..!