quinta-feira, 12 de abril de 2012

doença

o corpo que nos encerra
o corpo
essa matéria vã
dos prazeres passageiros

a alma onde o ser se manifesta
ajoelha perante a matéria

É ele que nos  aterra
e afunda
nesse buraco

de onde
nem um raio de alma
penetra.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

colo

as palavras que plantei
há tantas sementeiras
estão agora louras

eu não sabia

o nevoeiro
que tudo tolda
foi morte passageira

é hora da colheita
depositá-las-ei
rubras

no cetim
desse colo
onde sempre me embalo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

alma



é um mar
é uma maré
é esta água revolta e fria

é pensar
é profundidade e abismo
é este ir e vir
torrente e corrente

alma inquieta
exigente
neste vai e vem
de sonhos perdidos

espera o batel
dos esquecidos...
no leme o sonho

dos que nunca se dão por vencidos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cores


quero todas as cores
quero pintar as sílabas de risos
e sonhos

na boca de palavras
exilo as dores
pincelo-as
de carmim

e está a azul o céu
da paz que escolhi.

Estou em mim.

segunda-feira, 26 de março de 2012


Na tarde de primavera  e no calor temporão, na conversa aprazível da esplanada, observo. Magotes de gente que passa. Novas, velhas, com hábito, sem hábito, línguas diversas. Gestos particulares que marcam os olhos de quem vê.
Não sei de onde surge um casal, aparentemente banal. Não o seremos todos aparentemente? Meia idade... E o que é isto, cerca de 50 anos, com um aspeto em tudo banal... Nenhuma Angelina Jolie, nenhum Clooney. Nos pormenores marcam a diferença: a mão que se estende para ajudar a descer esse degrau que veem aqui em cima, os dedos entrelaçados, os corpos próximos e os olhares cúmplices.
Felizes, adolescentes de um amor sem tempo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

prece

este sol fora de tempo
que arranha a alma renego

os cinzas, os negros, as águas
bem-vindos
nestes tempos
em que quem deu vida
a procura

no escuro do inverno
e da chuva
a minha vela
e a minha prece
terão mais luz
e talvez Deus veja.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

estéril

do dia de demasia
desprende-se
apenas

um farfalhar de papéis, 
vozes apreendidas
carros que atravessam as ruas
deveres cumpridos
histórias partilhadas
momentos covividos

e um cheiro a fim de mundo
um sentimento sépia
que tudo impregna
normaliza
e esteriliza.

autómato.
cumpro.

nada de almas nuas
nem fantasias
nem melancolias
nem de latas a bater

nada de poder parecer
que algo
é mais que o ser.

só a névoa matinal
húmida e opaca
desafinou a pintura
e introduziu na alma
uma ligeira nervura.

I.P.