sexta-feira, 2 de março de 2012

prece

este sol fora de tempo
que arranha a alma renego

os cinzas, os negros, as águas
bem-vindos
nestes tempos
em que quem deu vida
a procura

no escuro do inverno
e da chuva
a minha vela
e a minha prece
terão mais luz
e talvez Deus veja.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

estéril

do dia de demasia
desprende-se
apenas

um farfalhar de papéis, 
vozes apreendidas
carros que atravessam as ruas
deveres cumpridos
histórias partilhadas
momentos covividos

e um cheiro a fim de mundo
um sentimento sépia
que tudo impregna
normaliza
e esteriliza.

autómato.
cumpro.

nada de almas nuas
nem fantasias
nem melancolias
nem de latas a bater

nada de poder parecer
que algo
é mais que o ser.

só a névoa matinal
húmida e opaca
desafinou a pintura
e introduziu na alma
uma ligeira nervura.

I.P.

sábado, 14 de janeiro de 2012

nada

alindei-me
perfumei-me
saí


agrado-me

os outros?
olhares que escondem
o que não quero descobrir

sempre a mesma descoberta
esta vida incerta
esta promessa
que nunca é.

sábado, 8 de outubro de 2011

vazio

manhãs claras
almas turvas

da vida
de não saber dela

apenas esta água
em que me espelho
e onde nunca mergulho.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Agenda

escorre dos dedos o último raio de calor

na alma em fogo
sou-me torpor

enleio de tristeza
que aguarda a noite
onde se banhará
em sombra e maresia.

Para a noite a poesia.

O resto?


Fica para a luz do dia.







sexta-feira, 1 de julho de 2011

Deriva

daqui do alto
tudo tão longe

a alegria
a vida
o corpo
o sentir

só o coração da cidade
bate
pulsa
chama

mover
cumprir
respirar

o ser?
tem que se procurar
perdido
no segundo
de alguma hora...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Depois

se amanhã
o dia não vir

tenho pena hoje

do que não senti
do que não vi
do que não disse
do que não escrevi


correr pelo hoje
sem respirar
sem parar
para pensar
que o amanhã

talvez
na alva
em que não
esteja
veja lá do alto
sempre o que não consegui
almejar

e aí
talvez eu
toda seja.