terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Único

A ideia de ti
colou-se-me

é pão
é luz
e ar

a palavra acende-me

e torna-te
real


tanto corpo
tanta alma


só tu assim.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Lembranças 1

Hoje lembrei-me da minha avó. Uma mulher fantástica de quem gosto de pensar que herdei alguma coisa. Uma daquelas mulheres que me faz lembrar algumas das personagens de Agustina, de raiz cravada na terra, de mão na enxada e na foice, de olhar fito no essencial.
Associada à minha avó, a minha bisavó, que eu via chegar de meses em meses (tinha sete filhos espalhados por dois distritos, passava em casa de cada um mês). Chegava de mala e cuia, com um grande saco cheio dos mais variados chás e uma cafeteira pretíssima onde fazia os chás, na lareira da minha avó, e uma cabeça de histórias, sobretudo de bruxas e encantamentos. Fazia versos ao jeito das quadras populares, diz a minha mãe que talvez venha daí o meu algum jeito para a escrita. Às seis filhas e às netas e bisnetas costumava dizer “Muito cuidadinho com os homens! São como as trempes, quando não queimam mascarram” (utilizava outra palavra – “escravunçam”, mas esta não a encontro em dicionário nenhum!).
Ambas casaram com homem fracos, ambas tomaram as rédeas do governo da casa. A minha bisavó, filha de casa abundante, apaixonou-se por um Zé Ninguém pequenino que conheceu num bailarico, explicava ela anos mais tarde o desvario da paixão e a vida de privações “ele balhava tão bem…”.
A minha avó, sagaz, de olho na experiência da mãe e nas provações de infância, casou rica, pensava ela. O meu avô, filho da patroa que a contratara para a apanha da azeitona, alfaiate, profissão de família, letrado e amante de leituras parecia um bom partido. Depois duns meses de namoro, e de muitas viagens de burro entre a terra dum e doutro, lá se fez a boda. Quatro filhas mais tarde, com uma crise enorme, sem trabalho na alfaiataria e com um homem que achava que era desprezo trabalhar no campo, arregaçou as mangas e foi trabalhar à jorna, ceifar, cavar, apanhar alecrim.
Uma morreu com 98, só tendo ido ao médico na altura da morte, sem nunca ter bebido leite (não gostava), o seu pequeno-almoço era um copo de vinho tinto e uma fatia de toucinho assado.
A minha avó morreu faz agora em Julho dois anos, com 96, era do signo leão. Conheço três mulheres de signo leão, todas mulheres inteiras, de coluna vertebral. Parece que a estou a ver, com os seus olhos azuis, a perna bem feita do seu orgulho, desempoeirada a ensinar-me a amassar o pão, a lavar as meias na pia de pedra, à beira do caminho e a ralhar com a minha mãe por me deixar tomar banho todos os dias. Tenho muitas saudades dela.
Nem uma nem outra sabiam ler nem escrever, mas possuíam uma sabedoria e uma visão do mundo inigualáveis. Recordo-as muitas vezes, mulheres anónimas, de quem não consta nenhum feito digno de nota em nenhum jornal ou livro, mas que foram únicas. Heroínas.

Manhã





Fugiu-me o olhar
pela manhã

foi atrás do sol
à procura
das primeiras flores da Primavera
que adivinha nos campos

e eu fiquei
pregada às letras
presa no labirinto
que as palavras tecem

acho que vou atrás dele

ser só brisa no ar
flor que desponta
para quem a quiser apanhar.

Há dias assim...
Em que me sinto a primeira pessoa
que no mundo
está a acordar...

Fico a velar...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Guia

Gosto de subir a serra assim de manhã cedo, quando é início de tudo e o dia um imenso território inexplorado em que tudo pode acontecer...
Observo o sol que derrete o gelo, ouço a música, sinto-me em casa aqui, nestas pedras, nestas árvores raras, nesta paisagem agreste e nua,onde me recolho e me sinto inteira. Despida de acessórios, em ligação directa à força alimentadora.
Hoje fiz um exercício habitual em mim, experimentei ver a minha paisagem querida pelos teus olhos,que não a conhecem.
Saboreei-a no prazer da tua descoberta, antevi-me na tua surpresa,vi-me nos teus olhos, os meus expectantes...
- Gostas?
Acho que sim.
No verde dos meus olhos há folhas de oliveira e restos de mel de madressilva e rosas albardeiras. Cá dentro afasto aquelas pedras maiores que impedem os visitantes de chegar àquele cantinho de paisagem que só eu conheço.
É bom ter-te cá.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Toponímia sentimental

Vemos cada sítio em que já estivemos com os olhos do coração, porque cada local fica associado ao que lá vivemos, numa espécie de mapa sentimental em que as grandes urbes são os locais em que fomos felizes, por insignificantes que sejam na importância real, colocando os locais em que a vida nos correu menos bem, por muito importantes que sejam, em terra de nenhures, onde não voltamos sem um calafrio, contrariados, e sem que a mente nos remeta para acontecimentos funestos.
Ligadas aos sítios em que fomos felizes ou não, estão pessoas que nos fizeram, ou não, felizes nesses sítios...
Cada sítio nos fala do que lá vivemos e com quem vivemos.
As histórias terminam, tudo passa, mas as nossas lembranças mantêm-nas vivas nos sítios onde se desenrolaram, por isso voltar é ser assolado por elas, numa espécie de folhear de álbum de fotografias amarelecidas, cujo cheiro adocicado a mofo nos suscita uma leve náusea.



aqui fui feliz
e isso basta-me

aqui tudo me diz
de olhares embrulhados
de mãos irrequietas
de sentires desgovernados

que importa se passou

sou aqui feliz onde fui

domingo, 8 de fevereiro de 2009

mãe

fui mãe nova, não demasiado nova, mas, de qualquer das maneiras, aos 23 anos penso que se pode considerar nova para os dias de hoje. fui mãe nova e como tal sem definir grandes planos ou traçar grandes objectivos,porque era assim casava-se e tinha-se filhos e pronto. nessa altura ainda não me tinha chegado a mania das interrogações ou das cogitações.
por isso, não me debati com grandes interogações metafísicas ou dúvidas existenciais, sobre se seria boa mãe, sobre a grande responsabilidade de educar um filho,e essas cenas, como eles dizem agora.
não sendo daquelas pessoas com instinto maternal exacerbado, fui aprendendo a ser mãe aos poucos, fui crescendo com eles, fui-me educando.
dezassete anos depois digo que é o emprego que mais gosto, o que me dá mais prazer, o que me dá mais felicidade.sem nenhuma dúvida.
Sou uma mãe feliz, muito feliz. Isto não quer dizer que seja uma mãe perfeita, ou que os meus filhos sejam perfeitos... Mas andamos lá perto, loooooool (aprendi a lolar com eles).
Rimos muito os três, e às vezes gritamos muito também, porque os gajos são uns desarrumados do catano e ouvem música aos berros, menos mal que ouvem Doors, pink floyd e outras cenas afins, o problema é só o volume.
Com o mais velho, ave rara, partilho uma infinidade de coisas grandes e pequenas, livros, séries, blogues, confidências várias, os meus amigos, os seus amigos...
Com o mais novo, ganda cromo, mais parecido comigo, é mais músicas, culinária,ginásio, public relations e uma boa disposição contagiante.
por isso, o dinheiro não estica, a euribor, o combustível, moem, mas não matam porque nos temos felizes e saudáveis.
para o ano o mais velho vai sair do ninho, não me aflige, fico contente por ele, faz parte. eu fico cá sempre e ele sabe. mas vou ter umas saudadezitas...
pronto...
hoje deu-me para isto, talvez porque ontem tive a casa cheia com os amigos deles e me diverti com o divertimento deles e porque adoro vê-los assim: felizes.
para quem não tinha plano nem filosofia inicial, acho que não estou a ir mal, nada mal mesmo ( modéstia à parte)...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Rasto... Outro

Tudo se apaga
apaga-se
a Dor
os nomes
o inútil
o fútil


O meu rasto fica


cada sílaba que juntei
cada beijo que te dei


Pisei com força
Na vida desencontrada
Em cada estrada esburacada


O meu rasto fica



E eu vou comigo…