quarta-feira, 4 de junho de 2008

Prosa

Hoje apetecem-me frases corridas, hoje os versos parecem-me pequenos para levarem tudo o que sinto, hoje apetece-me falar da vida;
Hoje apetece-me dizer que gosto de me levantar e ficar um pouco no silêncio a ouvir a rua lá fora a mexer, enquanto eu me preparo para a enfrentar;
Hoje apetece-me dizer que é muito bom sentir que é só mais um dia e que amanhã vem outro em que poderei desfazer o que menos bom acontecer, ou fazer melhor;
Hoje apetece-me dizer que aqueles morangos vermelhos que tenho ali na cozinha exalam um cheiro fabuloso e que logo, quando entrar em casa e sentir o meu reduto, me deliciarei a comê-los e pensarei em como sou afortunada;
Hoje apetece-me dizer que os meus filhos já sairam e deixaram tudo desarrumado, mas que é bom senti-los algures, a crescerem, a serem aquilo que são, uns seres humanos fabulosos e agradecer cada dia que me é dado com eles;
Hoje apetece-me dizer que o que é banal e comezinho encerra a essência da nossa vida ...
Hoje apetece-me dizer que no nosso olhar sobre o mundo está o segredo das coisas, hoje apetece-me que a água escorra dos meus olhos e lave as mágoas porque às vezes faz bem e tudo fica mais claro.


Hoje vou viver, porque gosto, porque amanhã não sei...

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Quadras imperfeitas

No correr dos dias seguidos
cinzentos nos movemos
guiados pelos sentidos
sedentos do que não temos

permanente insatisfação
que nos inquina os dias
cegos ao que nos dão
surdos a melodias

dias assim, de estagnação
em que tudo parece baço
em que tudo parece vão
em que questiono o que faço.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Abrigo-te

por entre as lembranças do sol
guardadas na pela morena
por entre o calor dos beijos
guardados no meu pensamento


sou pólen na tua primavera
gota límpida nesta vidraça
perfume na tua alfombra
brisa leve que passa


no mapa do teu sentir
deixa-me ser aldeia
casa de branco caiada
alpendre voltado ao sul
janela de azul
onde o teu coração abrigado
se espraia...

Fica-me ao fim da tarde,
por entre os hibiscos e as cerejas
entre os risos e as palavras
entre os beijos comungados,
murmuro...

Somos presente e passado
Somos seiva, sémen, sílaba
Na casa dos antepassados
Sabemo-nos a futuro.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Abrigo

Deixa-me dizer-te
da chuva que cai miúda
sobre o meu coração

deixa-me contar-te
da torrente
que passa

deixa-me narrar-te
a história
que me contaste ao ouvido...

És chuva no meu sequeiro
calor no meu Inverno


És e abrigas-me.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Farol

no meio da multidão
no labirinto da vida
perco-me em mim

espero um sinal
espraio a vista
na busca de um farol
que me alumie
que me mostre os escolhos

se me apareceres hoje
no meio da multidão
reconhecer-te-ei

ver-me-ei reflectida
no farol dos teus olhos
e guiar-me-ás
em ti
leme de mim
leme de nós.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Partida

Era uma dia como os outros
Era uma vida como as outras



Sempre tudo tão igual...

Quem me leva?



Levem-me de férias de mim...
Já quase me não suporto



longe ganharei saudades
e quando me encontrar comigo



sentirei aquele vago contentamento
do reencontro com alguém querido
mas que passamos bem sem ver

esta vaga tristeza,
este estar alheio ao bem
voltarão....

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Escalada

No cimo da montanha
que se vê do meu coração
estás tu...

pujante, libertino, vivo...

Não grites...

Eu sinto-te...

Do cimo da montanha a nós
vai apenas a distância do querer

E queremos.