Depois da big party e das respectivas arrumações, tem sido muitas sopas e descanso. Entreguei-me à leitura dos livros que me ofereceram, entremeada com umas sonecas e contemplações do céu a partir da minha janela.
Ontem de manhã, o céu estava especialmente azul e, deitada na minha cama,(tenho o privilégio de ter um janelão enorme de onde só se vê o céu), havia uma pequena nuvem branca, tipo pincelada ao acaso, pequena, redonda, que foi desaparecendo, no seu trajecto. Depois vieram outras, pequenas, brancas, airosas, que passaram também e dei por mim a pensar nos meus amigos, na minha família, na festa, nos quarenta, nas pessoas que passaram na minha vida sem deixar grande impressão, como aquelas nuvens brancas e leves, e noutras que passaram e deixaram um rasto, tipo aquelas nuvens associadas a grandes tempestades das quais, anos depois, ainda se guardam reminiscências dos danos que provocaram. Finalmente pensei nas pessoas que têm permanecido, nas que têm chegado de novo... Pensei nos meus alunos, especialmente nos mais problemáticos, naqueles que me dão mais luta, naqueles que são mais dificeis e em como é bom ganhar o afecto deles. Ontem de manhã, um deles, talvez o mais problemático de todos, ligava-me com um ar choroso, a dar-me os parabéns, a dizer que se tinha esquecido e se me podia mandar uma mensagem de Páscoa... Era domingo de Páscoa e sei que para ele seria só mais um dia, em que provavelmente racharia lenha, seria ridicularizado pelo pai, trabalharia duro, não haveria amêndoas, coelhos de Páscoa ou mimos. Portanto festejei o seu telefonema como se tivesse chegado no momento exacto do aniversário.
Tenho esta mania de abrir a porta a toda a gente, de partir à descoberta de cada pessoa, só com expectativas positivas e de as deixar revelar-se na sua plenitude, não serão perfeitas porque eu também não sou, às vezes não corre bem, porque de facto há algumas que nos trazem muito pouco de bom. Em compensação há outras... que tudo compensam.
Pensei nas pessoas que estiveram em minha casa, nos seus percursos de vida, nos seus problemas, no muito que me têm enriquecido, no porquê de estarem ali. Os meus pais, com quem sempre contei, a quem tudo devo. Os meus filhos, companheiros insubstituíveis. E todos os outros, especiais para mim, de alguma forma.
Pensei nas que não estiveram, embora eu o tivesse desejado, mas que não estando em corpo, o estiveram em espírito, acompanhando-me. Como em cada dia.
E depois, regressei ao livro, e depois veio uma sonolência e fiz uma soneca.
"Tá-se" bem.
segunda-feira, 24 de março de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
Vimos chegar as andorinhas
Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranquilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
Rosa Lobato de Faria
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranquilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
Rosa Lobato de Faria
terça-feira, 18 de março de 2008
Cativa-me
(...) E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um menino inteiramente igual a cem mil outros meninos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
Antoine de Saint Exupery
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um menino inteiramente igual a cem mil outros meninos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
Antoine de Saint Exupery
Porta aberta
Quem tiver coragem que me refreie,
Que me ponha um freio,
Uma mordaça,
E cale a voz que tenho em mim.
Tenho tempestades para dar
A quem se atrever a entrar,
Nas portas que abro aqui.
Quem quiser calmaria
É melhor nem espreitar,
Que não sou
Santuário ou oásis,
E a paz,
Não a encontram em mim.
Mas quem quiser ser vento,
Atravessar tempestades,
Subverter todas as possibilidades
Mergulhar sem saber profundidades...
A porta está aberta,
Pode entrar!
Encandescente, in"Bestiário",pág.68, Edições Polvo
Que me ponha um freio,
Uma mordaça,
E cale a voz que tenho em mim.
Tenho tempestades para dar
A quem se atrever a entrar,
Nas portas que abro aqui.
Quem quiser calmaria
É melhor nem espreitar,
Que não sou
Santuário ou oásis,
E a paz,
Não a encontram em mim.
Mas quem quiser ser vento,
Atravessar tempestades,
Subverter todas as possibilidades
Mergulhar sem saber profundidades...
A porta está aberta,
Pode entrar!
Encandescente, in"Bestiário",pág.68, Edições Polvo
segunda-feira, 17 de março de 2008
40
Esta semana é especial... Lá para o fim da semana faço 40 anos. Quando era adolescente e pensava em pessoas com mais de 30 anos achava que eram velhas! Não me sinto velha, pelo contrário, sinto-me melhor que nunca, não gostaria que o tempo voltasse para trás, mas poderia parar aqui.
Trago em mim tudo o que me aconteceu... O que me fez rir, o que me fez chorar, o que me fez pensar, as asneiras que fiz, os meus sucessos, os meus fracassos e toda eu sou estas coisas todas arrumadas cá dentro e que me impulsionam a viver mais e melhor.
Não mudaria nada do que aconteceu, tudo contribuiu para aquilo que sou hoje, mesmo o que me fez mais mal e me magoou mais, foi com o que mais cresci.
Aliás, tenho da vida uma concepção um pouco fatalista, acho que nada nos acontece por acaso, portanto...
Gosto de viver, de rir, das pessoas que estão ou passaram pela minha vida. Gosto de sair de casa em cada dia e ter o privilégio de fazer o que gosto, de sentir cada cheiro, cada palavra, cada olhar. Por isso farei uma festa, porque cá dentro há festa!
Depois... Gosto do dia que escolhi para nascer, acho que é especial...
Dia da árvore... Uma árvore não é um ser vivo qualquer, está em íntima comunhão com a terra, comunga da sua seiva,expande a sua sombra sobre viajantes exaustos, namorados de mãos dadas, velhos que jogam cartas, baloiços que oscilam por entre gargalhadas...
Dia da poesia, o que eu gosto de poesia! Oque eu gosto de palavras intensas, combinadas daquela forma que me toca , de momentos que por vezes, sem nenhuma palavra, são poesia pura.
Dia da Primavera, colo aqui o que já escrevi...Gosto deste cheiro a Primavera, deste sentir que a natureza se renova, destas temperaturas mais tépidas, do aligeirar das roupas, do cheiro do polén no ar. Há uma promessa de regeneração...
Trago em mim tudo o que me aconteceu... O que me fez rir, o que me fez chorar, o que me fez pensar, as asneiras que fiz, os meus sucessos, os meus fracassos e toda eu sou estas coisas todas arrumadas cá dentro e que me impulsionam a viver mais e melhor.
Não mudaria nada do que aconteceu, tudo contribuiu para aquilo que sou hoje, mesmo o que me fez mais mal e me magoou mais, foi com o que mais cresci.
Aliás, tenho da vida uma concepção um pouco fatalista, acho que nada nos acontece por acaso, portanto...
Gosto de viver, de rir, das pessoas que estão ou passaram pela minha vida. Gosto de sair de casa em cada dia e ter o privilégio de fazer o que gosto, de sentir cada cheiro, cada palavra, cada olhar. Por isso farei uma festa, porque cá dentro há festa!
Depois... Gosto do dia que escolhi para nascer, acho que é especial...
Dia da árvore... Uma árvore não é um ser vivo qualquer, está em íntima comunhão com a terra, comunga da sua seiva,expande a sua sombra sobre viajantes exaustos, namorados de mãos dadas, velhos que jogam cartas, baloiços que oscilam por entre gargalhadas...
Dia da poesia, o que eu gosto de poesia! Oque eu gosto de palavras intensas, combinadas daquela forma que me toca , de momentos que por vezes, sem nenhuma palavra, são poesia pura.
Dia da Primavera, colo aqui o que já escrevi...Gosto deste cheiro a Primavera, deste sentir que a natureza se renova, destas temperaturas mais tépidas, do aligeirar das roupas, do cheiro do polén no ar. Há uma promessa de regeneração...
quinta-feira, 13 de março de 2008
Normas
O nosso mundo é cheio de regras e convenções e conduzir-nos por entre tantos sinais de trânsito e proibições, evitando choques frontais, despistes e outros percalços é obra! As normas vêm dos mais variados lados e regulamentam as mais variadas coisas e nós cá vamos vivendo, numa gincana constante cuja meta será estarmos bem, em suma, sermos felizes, seja lá o que isso for para cada um de nós.
Pagamos impostos, pagamos casa, tiramos férias quando nos deixam, entramos e saímos dos empregos quando nos mandam. Não damos escândalo (supostamente) e isto pressupõe que temos os comportamentos considerados adequados à nossa faixa etária e classe social: não andamos nus na rua, não exteriorizamos demasiado os nossos sentimentos em público… Resumindo: somos mais ou menos alinhados. Alinhados com quê? Connosco ou com os outros?
Além destas regras existem muitas outras… Temos os pecados mortais que aprendemos na catequese e definidos pelo Papa Gregório I no séc. VI, ainda se lembram? Gula, avareza, preguiça, raiva, luxúria inveja e orgulho. Bem… Daqui ninguém se safa, todos pecamos, menciono só os mais ao alcance de todos: o prazer de ter um dever para cumprir e não o fazer, como dizia o poeta; o prazer de saborear as nossas iguarias, de fazer às vezes quilómetros para degustar aquilo que as nossas papilas, gulosas, nos exigem! Já para não falar dos dez mandamentos… Aliás o Papa, esta semana, resolveu actualizar a lista de pecados mortais juntando-lhe mais seis: pedofilia, aborto, poluição do ambiente, pobreza extrema de uns e riqueza escandalosa de outros, tráfico de droga e realização de experiências de manipulação genética.
No meio desta confusão, parece-me que o caminho é simples e que encontrado esse, tudo o resto virá naturalmente: se gostarmos de nós, saberemos desfrutar e gostar dos outros e do que nos rodeia, saberemos o que nos magoa e o que nos faz felizes e teremos prazer em fazer os outros felizes, teremos prazer em viver harmoniosamente com o ambiente que nos rodeia.
Pagamos impostos, pagamos casa, tiramos férias quando nos deixam, entramos e saímos dos empregos quando nos mandam. Não damos escândalo (supostamente) e isto pressupõe que temos os comportamentos considerados adequados à nossa faixa etária e classe social: não andamos nus na rua, não exteriorizamos demasiado os nossos sentimentos em público… Resumindo: somos mais ou menos alinhados. Alinhados com quê? Connosco ou com os outros?
Além destas regras existem muitas outras… Temos os pecados mortais que aprendemos na catequese e definidos pelo Papa Gregório I no séc. VI, ainda se lembram? Gula, avareza, preguiça, raiva, luxúria inveja e orgulho. Bem… Daqui ninguém se safa, todos pecamos, menciono só os mais ao alcance de todos: o prazer de ter um dever para cumprir e não o fazer, como dizia o poeta; o prazer de saborear as nossas iguarias, de fazer às vezes quilómetros para degustar aquilo que as nossas papilas, gulosas, nos exigem! Já para não falar dos dez mandamentos… Aliás o Papa, esta semana, resolveu actualizar a lista de pecados mortais juntando-lhe mais seis: pedofilia, aborto, poluição do ambiente, pobreza extrema de uns e riqueza escandalosa de outros, tráfico de droga e realização de experiências de manipulação genética.
No meio desta confusão, parece-me que o caminho é simples e que encontrado esse, tudo o resto virá naturalmente: se gostarmos de nós, saberemos desfrutar e gostar dos outros e do que nos rodeia, saberemos o que nos magoa e o que nos faz felizes e teremos prazer em fazer os outros felizes, teremos prazer em viver harmoniosamente com o ambiente que nos rodeia.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Da amizade
"Era bom saber – continua, como se discutisse consigo próprio –, se existe amizade realmente? Não me refiro àquele prazer ocasional que faz com que duas pessoas fiquem contentes porque se encontraram, porque num determinado período das suas vidas pensavam da mesma maneira sobre certas questões, porque os seus gostos são semelhantes e os seus passatempos iguais. Nada disso é amizade . Às vezes chego a pensar que essa é a relação mais forte na vida... talvez por isso seja tão rara. E o que há no seu fundo? Simpatia? É uma palavra imprópria, sem sentido, o seu conteúdo não pode ser suficientemente forte para que duas pessoas intervenham em defesa um do outro nas situações mais críticas da vida... apenas por simpatia? Talvez seja outra coisa?... Talvez exista uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas? [...] Naturalmente, a amizade não tem nada a ver com a inclinação doentia de algumas pessoas que procuram uma satisfação disforme com pessoas do mesmo sexo. O Eros da amizade não precisa do corpo... longe disso, incomoda mais do que o excita. Porém não deixa de ser Eros. Eros está no fundo de todos os afectos, de todas as relações humanas. [...]
As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas que essa intimidade é uma espécie de amizade."
Sandor Marai, as velas ardem até ao fim
( Aquele livro onde volto sempre)
As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas que essa intimidade é uma espécie de amizade."
Sandor Marai, as velas ardem até ao fim
( Aquele livro onde volto sempre)
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