domingo, 2 de dezembro de 2007

Lágrima

Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim o castigo
Eu não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estando o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar
Por uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar



Amália Rodrigues (Fadista e poetisa portuguesa, 1920-1999)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Da solidão...

Comunicamos em todo lado e de todas as formas… Telefone, sms, Internet. Ainda sou do tempo em que poucos tinham telefone fixo (pareço a senhora da publicidade… Ai que cota que sou!).
E nunca estivemos tão sozinhos… Famílias com cada vez menos filhos, cada vez mais pessoas que moram sós, porque calhou, porque optam por relações do tipo cada um na sua casa, porque não conseguem arranjar ninguém. E depois há os que, morando acompanhados, se cruzam com estranhos dentro da própria casa. Por vezes conhece-se tanta gente e ninguém para preencher aquele vazio cá dentro.
Já nem falo das pessoas de mais idade, armazenadas nos locais próprios, de olhares parados, fixos na porta da visita dominical, se a há… Se não, é o abandono. Criaram-se filhos, netos e fica-se para ali, ninguém tem tempo.
As esteticistas, os cabeleireiros, os médicos e todos aqueles cujos serviços implicam permanência temporal têm muitas vezes esse papel de ouvintes, de ser gente à escuta.
Facilmente se manda um sms, um e-mail e se põem ali em meia dúzia de palavras alguns sentimentos… Mas difícil é encontrar tempo cá dentro para ouvir os outros, para nos sentarmos, tomarmos um café, olharmos nos olhos, abraçarmos, rirmos, consolarmos. Absorvidos na voragem dos dias, andamos ocupados com nadas, esquecemos o essencial, esquecemo-nos dos outros e muitas vezes de nós.

domingo, 25 de novembro de 2007

Cúmplices....

A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto

Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
É tantas vezes o que resta do calor

Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho

Trocámos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer

Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto

Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho

Mafalda Veiga (Poeta e cantora portuguesa, 1965- )
Após um tempo,
Aprendemos a diferença subtil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender...
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeça levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos...
E os futuros têm um forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos...
E em cada dia aprendemos.


Jorge Luís Borges (Poeta Argentino, 1890-1986)
Tradução de Luís Eusébio

Anoiteceu

Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.
Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...
Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...
Então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar à volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia...

João Mendonça (Poeta Português)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Mãe hoje

Há receitas infalíveis para tantas coisas, devia haver uma receita para transformar crianças em adultos felizes, bem resolvidos. Olho à minha volta, penso nos casos que conheço e chego à conclusão que as variáveis são tantas que dificilmente se consegue apurar uma receita... Conheço famílias convencionais, estruturadas, com filhos de sucesso e com outros que acabaram em centros de recuperação, que nunca tiveram profissão. E o contrário também acontece! Famílias disfuncionais com filhos de sucesso e outros que nunca se encaminham na vida...
O que é certo é que nós, pais, procuramos fazer o nosso melhor... Primeiro alimentamos, cuidamos, vigiamos. Depois jardins de infância, colégios, escolas e aqui a coisa começa a complicar-se!
Porque me desculpem as mães de antigamente, mas parece-me que agora é mais difícil criar filhos! As solicitações são tantas...
Sou mãe de dois adolescentes, trabalho com adolescentes. Nunca houve tanta informação como agora e tão acessível, a Internet banalizou-se, a televisão, as revistas, os telemóveis. E nunca houve tanto desnorte como agora, tanta falta de regras e tanta dificuldade em defini-las.
Sobretudo porque a imposição de regras exige empenho, firmeza e dá trabalho, por isso conheço tantos pais que se demitem, que dizem sempre sim a tudo e depois, quando os problemas surgem, aparecem nas escolas pedindo aos professores : Veja lá se faz alguma coisa dele que eu não consigo... E normalmente, é tarde demais e já ninguém consegue.
Definir regras, incutir valores é fundamental. Mas só dando liberdade aos nossos adolescentes sabemos se a nossa mensagem chegou. Durante esse processo temos que os acompanhar, em cada erro, em cada sucesso, mimar, castigar. Sem garantias.
Chama-se a isso crescer.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Porque não te calas?

Eu gostei da atitude do Rei de Espanha, confesso. Podem dizer que não foi muito apropriada, que foi impulsiva, que se calhar até vai prejudicar não sei o quê... Quantas vezes não nos apeteceu já, em muitas situações, fazer o mesmo? Mandar às urtigas a boa educação, o decoro, o respeito por tantas coisas e dizer exactamente o que grita cá dentro e fazer exactamente o que nos apetece!
São as convenções e as regras que tornam o nosso mundo civilizado, ordeiro e expectável. Conduzimos pela direita, paramos nos semáforos, comemos com a boca fechada, não discutimos em público... E se alguém discute ou fala alto , olhamos pelo canto do olho e pensamos: Que horror, que falta de nível!
Quem não segue as convenções é apontado, cochichado e ... Temos uma facilidade enorme em nos armarmos em juízes, em julgar os outros, em apontar o dedo até ao dia em que... Qualquer coisa nos abana e pisamos o risco, abrimos o colete de forças, permitimo-nos ser nós, primordiais, básicos, autênticos. O tremor de terra pode ter várias origens: uma doença, um acidente, um desgosto, um amor... mas uma coisa é certa, a paisagem cá dentro nunca mais é a mesma! Reorganizamos os nossos pontos cardeais, redefinimos o norte e arrumamos as convenções no local próprio... Na prateleira das coisas que respeitamos, mas que não nos tiranizam.
Todos nós às vezes necessitamos e devemos dizer os nossos "Porque não te calas?", porque não somos de ferro e também temos os nossos dias não, porque há situações em que não nos devemos mesmo calar, mesmo que isso seja incómodo, porque nos faz bem.
Mas também devemos saber que há momentos em que o silêncio é a atitude mais sábia, aquela que mais nos protege e aos outros. O difícil mesmo é saber gerir os silêncios e as palavras, de modo a que nem uns nem outras nos sufoquem.
Quem disse que viver é fácil?