quinta-feira, 19 de julho de 2007

Fim de tarde...

Gosto muito do fim de tarde... Aquele período em que não é noite nem é dia. Especialmente se estiver numa grande cidade, gosto de me sentar num sítio e observar as pessoas nas suas correrias, imaginá-las: para onde vão, as suas histórias, as suas tristezas, as suas alegrias, os seus dramas. E sinto uma enorme paz interior que resulta da partilha com todos os que vejo de algo que não sei muito bem o que é... Talvez a percepção que no essencial somos todos muito iguais, apesar das máscaras que temos que usar. Chegados ao fim todos precisamos de um porto de abrigo... uma casa, uma família, um peito, um livro, um gato, um abraço, uma palavra e é para lá que corremos, que nos apressamos.
Neste fim de tarde de Verão, um pouco fresco, olho pela janela, vejo o mundo lá fora que corre. Estou no meu porto... acompanha-me a palavra.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Procuro-te

O que procuramos? Procuramos estar bem...Seja lá o que isso for e como for. O bem estar, a felicidade não são estados, são momentos em que pelos mais variados motivos alcançamos a tal plenitude.
O que procuramos e como procuramos é que nos faz diferentes uns dos outros. Uns precisam de um carro, outros uma casa, outros uma viagem, outros de um emprego, outros de amor, outros de atenção... Há gente que é feliz com tão pouco e outros a quem nada parece satisfazer...
Eu sou como muita gente... À procura de algo, que não é material. Com os meus medos, as minhas inseguranças. Parece-me tão pouco o que procuro... e ao mesmo tempo tão dificil de encontrar ... Talvez exija muito, não me contente com pouco! O pouco está sempre garantido, não é? Nestas circunstâncias o que queremos também passa pelos outros, pelo que nos trazem, pelo que nos enriquecem, pelo que lhes damos, pelo prazer que temos em dar e receber. Nos intervalos da vida passam pessoas - desconhecidos, conhecidos, sacanas, indiferentes, amigos, amores. Gosto de pessoas com coisas lá dentro que assomam aos olhos e quase que entram por mim nos meus olhos, mesmo se fujo.
Procuro-te.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Poema...

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar."

De "O Canto do Vento nos Ciprestes"Maria do Rosário Pedreira

Chegou!

A morte veio hoje... Não tinha marcado nada, mas aguardavamo-la já há muito. Desejamo-la. Tão agarrados que somos à vida, tanto que a morte nos choca, tanto que fugimos , que nos revoltamos...
E agora agradecemos a sua vinda! É mesmo assim a vida... Molda-nos, põe-nos à prova, confronta-nos com o que nem sabemos que somos ou sentimos.
Ainda bem que a minha avó morreu, nos últimos dias, ao ver o seu sofrimento, pensei que era isso que merecia, que fosse rápido, que acabasse a tortura.
Quando nos tornamos farrapos de nós, quando perdemos o que nos caracteriza e distingue , quando só um corpo resiste mutilado, degradado. O corpo com que se amou, dançou, com que se teve filhos, que se alindou... agora cárcere, carrasco.
Boa viagem avó.

domingo, 8 de julho de 2007

Sob o signo da inquietação



o susto em nós foi avançar muito pra dentro
do proibido. Muito pra perto de uma zona
perigosa. A boca da noite. O desconhecido.
Vagos caminhos de uma via nebulosa.


Vários conceitos pra falar da mesma coisa
o susto em nós foi descobrir porteiras
de territórios nunca antes percorridos
no fundo de todos nós um visitante
no fundo a falta de sentido


Visitantes de nós mesmos cometeríamos
a imprudência de quase enlouquecer
pra chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão.



Bruna Lombardi

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Há tanta coisa que não entendemos... A dificuldade está em não julgar, em aceitar, especialmente quando o que é diferente nos toca de perto, entra por nós, nos abala.
Os livros, a ficção transportam-nos para realidades que às vezes nos parecem impossíveis, mas chego à conclusão que a ficção é muito mais pobre que a realidade. Quando li o último romance do Mário Vargas Lhosa "Travessuras da menina má", comentava-o com uma grande amiga e discutíamos as fronteiras entra o amor e obsessão, a doença, a falta de amor próprio e perguntávamo-nos como era possível alguém gostar de outro a ponto de abdicar de si, daquilo que é essencial para que nos sintamos seres humanos inteiros, amados, respeitados.
Mas é possível e mais do que isso frequente. Acontece todos os dias, ao nosso lado e se calhar até já connosco nalgum momento das nossas vidas.
O amor é cego, já diz o ditado popular e com sabedoria. Mas que raio de amor se alimenta de dor e mágoa?E quando vemos as pessoas de quem gostamos a serem maltratadas, no corpo, no espírito sem conseguirem sair, discernir, cortar, resta-nos a incredulidade, a incompreensão. E também estarmos cá e abrir os braços quando for necessário acolher, consolar. Esse tempo chegará.

Intervalo...

Chegaste... Palavra a palavra... Como seda, rompeste a malha, a couraça... Ocupaste o teu lugar. E não mais intervalo, mas só tempo inteiro, pleno. E depois olhar, gesto, cheiro, tudo. Disseste o meu nome com os dedos a fazerem sulcos na alma das palavras. Ficaste.