quarta-feira, 11 de julho de 2007

Poema...

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar."

De "O Canto do Vento nos Ciprestes"Maria do Rosário Pedreira

Chegou!

A morte veio hoje... Não tinha marcado nada, mas aguardavamo-la já há muito. Desejamo-la. Tão agarrados que somos à vida, tanto que a morte nos choca, tanto que fugimos , que nos revoltamos...
E agora agradecemos a sua vinda! É mesmo assim a vida... Molda-nos, põe-nos à prova, confronta-nos com o que nem sabemos que somos ou sentimos.
Ainda bem que a minha avó morreu, nos últimos dias, ao ver o seu sofrimento, pensei que era isso que merecia, que fosse rápido, que acabasse a tortura.
Quando nos tornamos farrapos de nós, quando perdemos o que nos caracteriza e distingue , quando só um corpo resiste mutilado, degradado. O corpo com que se amou, dançou, com que se teve filhos, que se alindou... agora cárcere, carrasco.
Boa viagem avó.

domingo, 8 de julho de 2007

Sob o signo da inquietação



o susto em nós foi avançar muito pra dentro
do proibido. Muito pra perto de uma zona
perigosa. A boca da noite. O desconhecido.
Vagos caminhos de uma via nebulosa.


Vários conceitos pra falar da mesma coisa
o susto em nós foi descobrir porteiras
de territórios nunca antes percorridos
no fundo de todos nós um visitante
no fundo a falta de sentido


Visitantes de nós mesmos cometeríamos
a imprudência de quase enlouquecer
pra chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão.



Bruna Lombardi

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Há tanta coisa que não entendemos... A dificuldade está em não julgar, em aceitar, especialmente quando o que é diferente nos toca de perto, entra por nós, nos abala.
Os livros, a ficção transportam-nos para realidades que às vezes nos parecem impossíveis, mas chego à conclusão que a ficção é muito mais pobre que a realidade. Quando li o último romance do Mário Vargas Lhosa "Travessuras da menina má", comentava-o com uma grande amiga e discutíamos as fronteiras entra o amor e obsessão, a doença, a falta de amor próprio e perguntávamo-nos como era possível alguém gostar de outro a ponto de abdicar de si, daquilo que é essencial para que nos sintamos seres humanos inteiros, amados, respeitados.
Mas é possível e mais do que isso frequente. Acontece todos os dias, ao nosso lado e se calhar até já connosco nalgum momento das nossas vidas.
O amor é cego, já diz o ditado popular e com sabedoria. Mas que raio de amor se alimenta de dor e mágoa?E quando vemos as pessoas de quem gostamos a serem maltratadas, no corpo, no espírito sem conseguirem sair, discernir, cortar, resta-nos a incredulidade, a incompreensão. E também estarmos cá e abrir os braços quando for necessário acolher, consolar. Esse tempo chegará.

Intervalo...

Chegaste... Palavra a palavra... Como seda, rompeste a malha, a couraça... Ocupaste o teu lugar. E não mais intervalo, mas só tempo inteiro, pleno. E depois olhar, gesto, cheiro, tudo. Disseste o meu nome com os dedos a fazerem sulcos na alma das palavras. Ficaste.

sábado, 30 de junho de 2007

Toca-me onde me dói e
verásuma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca
adivinhada de um mistério. Esta

é a tua vez de o desvendares -
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me

por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo

pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem

cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido

de uma aldeia. Não adivinhes -
lá, onde me doer, vou recordar-me.

Maria do Rosário Pedreira (Escritora e poetisa portuguesa, 1959- )

sexta-feira, 29 de junho de 2007

O cair da flor...

Os dias sucedem-se rapidamente, iguais em termos cronológicos para todos, mas tão diferentes para cada um.
Dentro de nós existem datas especiais, podem coincidir com as do calendário ou não, mas constituem marcos, às vezes somente lembranças, umas mais fugazes, umas mais duradouras, umas mais felizes, umas menos felizes. Constituem o nosso calendário de efemérides íntimo.
O mês de Março foi de muitas comemorações: Primavera, árvore, sono, poesia, etc
Houve até um dia para a Mulher. Não discorro aqui se as mulheres deviam ter um dia ou não, se não serão nossos todos os dias que quisermos, se não será uma chinesice uma vez que os homens não têm nenhum dia.
O que eu quero mesmo é falar de mulheres, não de todas, que seria impossível, mas de uma Mulher que é especial para mim: a minha avó.
No meu calendário de efemérides muitas estão associadas a ela, num roteiro de gestos, de palavras, de tradições que não mais voltarão. Lembro a pia de pedra onde lavávamos as meias do meu avô, onde me ensinava a esfregar com sabão e a corar a roupa ao sol; lembro a descamisada, quando chegava o carro dos bois e tirávamos as maçarocas da palha e depois na eira, no estio, quando escarolávamos o milho e esperávamos ansiosos por ela e o lanche que trazia dentro da ceira . Lembro a recolha da côngrua pascal, em que ela confeccionava coelho estufado na sua lareira para o Senhor Padre comer, as matanças de porco, lembro-me de me ensinar a amassar o pão. Lembro sobretudo as histórias dos tempos difíceis que ela me contava, a mim, que nasci em tempos de abundância, de tudo o que teve que fazer para criar as suas filhas: do alecrim que arrancou na serra, do trigo que ceifou, da azeitona que apanhou, das sardinhas divididas a meio…
Quando escrevo este texto, a minha avó trava uma das suas mais importantes batalhas, aquela que já trazemos perdida quando nascemos, embora a possamos adiar mais ou menos tempo: contra a morte. Mas 95 anos é uma bonita idade para morrer, sobretudo para quem viveu assim: de corpo inteiro, Mulher até ao fim.