domingo, 8 de julho de 2007

Sob o signo da inquietação



o susto em nós foi avançar muito pra dentro
do proibido. Muito pra perto de uma zona
perigosa. A boca da noite. O desconhecido.
Vagos caminhos de uma via nebulosa.


Vários conceitos pra falar da mesma coisa
o susto em nós foi descobrir porteiras
de territórios nunca antes percorridos
no fundo de todos nós um visitante
no fundo a falta de sentido


Visitantes de nós mesmos cometeríamos
a imprudência de quase enlouquecer
pra chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão.



Bruna Lombardi

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Há tanta coisa que não entendemos... A dificuldade está em não julgar, em aceitar, especialmente quando o que é diferente nos toca de perto, entra por nós, nos abala.
Os livros, a ficção transportam-nos para realidades que às vezes nos parecem impossíveis, mas chego à conclusão que a ficção é muito mais pobre que a realidade. Quando li o último romance do Mário Vargas Lhosa "Travessuras da menina má", comentava-o com uma grande amiga e discutíamos as fronteiras entra o amor e obsessão, a doença, a falta de amor próprio e perguntávamo-nos como era possível alguém gostar de outro a ponto de abdicar de si, daquilo que é essencial para que nos sintamos seres humanos inteiros, amados, respeitados.
Mas é possível e mais do que isso frequente. Acontece todos os dias, ao nosso lado e se calhar até já connosco nalgum momento das nossas vidas.
O amor é cego, já diz o ditado popular e com sabedoria. Mas que raio de amor se alimenta de dor e mágoa?E quando vemos as pessoas de quem gostamos a serem maltratadas, no corpo, no espírito sem conseguirem sair, discernir, cortar, resta-nos a incredulidade, a incompreensão. E também estarmos cá e abrir os braços quando for necessário acolher, consolar. Esse tempo chegará.

Intervalo...

Chegaste... Palavra a palavra... Como seda, rompeste a malha, a couraça... Ocupaste o teu lugar. E não mais intervalo, mas só tempo inteiro, pleno. E depois olhar, gesto, cheiro, tudo. Disseste o meu nome com os dedos a fazerem sulcos na alma das palavras. Ficaste.

sábado, 30 de junho de 2007

Toca-me onde me dói e
verásuma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca
adivinhada de um mistério. Esta

é a tua vez de o desvendares -
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me

por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo

pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem

cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido

de uma aldeia. Não adivinhes -
lá, onde me doer, vou recordar-me.

Maria do Rosário Pedreira (Escritora e poetisa portuguesa, 1959- )

sexta-feira, 29 de junho de 2007

O cair da flor...

Os dias sucedem-se rapidamente, iguais em termos cronológicos para todos, mas tão diferentes para cada um.
Dentro de nós existem datas especiais, podem coincidir com as do calendário ou não, mas constituem marcos, às vezes somente lembranças, umas mais fugazes, umas mais duradouras, umas mais felizes, umas menos felizes. Constituem o nosso calendário de efemérides íntimo.
O mês de Março foi de muitas comemorações: Primavera, árvore, sono, poesia, etc
Houve até um dia para a Mulher. Não discorro aqui se as mulheres deviam ter um dia ou não, se não serão nossos todos os dias que quisermos, se não será uma chinesice uma vez que os homens não têm nenhum dia.
O que eu quero mesmo é falar de mulheres, não de todas, que seria impossível, mas de uma Mulher que é especial para mim: a minha avó.
No meu calendário de efemérides muitas estão associadas a ela, num roteiro de gestos, de palavras, de tradições que não mais voltarão. Lembro a pia de pedra onde lavávamos as meias do meu avô, onde me ensinava a esfregar com sabão e a corar a roupa ao sol; lembro a descamisada, quando chegava o carro dos bois e tirávamos as maçarocas da palha e depois na eira, no estio, quando escarolávamos o milho e esperávamos ansiosos por ela e o lanche que trazia dentro da ceira . Lembro a recolha da côngrua pascal, em que ela confeccionava coelho estufado na sua lareira para o Senhor Padre comer, as matanças de porco, lembro-me de me ensinar a amassar o pão. Lembro sobretudo as histórias dos tempos difíceis que ela me contava, a mim, que nasci em tempos de abundância, de tudo o que teve que fazer para criar as suas filhas: do alecrim que arrancou na serra, do trigo que ceifou, da azeitona que apanhou, das sardinhas divididas a meio…
Quando escrevo este texto, a minha avó trava uma das suas mais importantes batalhas, aquela que já trazemos perdida quando nascemos, embora a possamos adiar mais ou menos tempo: contra a morte. Mas 95 anos é uma bonita idade para morrer, sobretudo para quem viveu assim: de corpo inteiro, Mulher até ao fim.

Amigos...

Um amigo é um tesouro, costuma ouvir dizer-se, e com razão.
Há quem tenha muitos amigos, há quem tenha poucos. Há quem pense muitas vezes ter encontrado o tal tesouro e, um belo dia, descubra que, por trás do brilho do ouro e das pedras preciosas que refulgiam se encontra apenas pechisbeque, sem qualquer valor.
Eu tenho alguns tesouros, não muitos, porque amigos verdadeiros, daqueles que sobrevivem aos solavancos do comboio da vida, daqueles a quem podemos dizer uma graça e uma desgraça, daqueles que nos puxam a s orelhas quando é preciso e que são companheiros nas vitórias e nas derrotas, tenho muito poucos. Encontrar um amigo com estas características é raro, por isso são tesouros e devemos estimá-los. O seu brilho não é só uma capa de verniz superficial, vem de dentro: os maiores tesouros estão dentro de nós.
A nossa vida é como qualquer cais de embarque de passageiros: chegam e partem pessoas, mas algumas demoram-se. Gostam do que vêem, nós gostamos de quem chega e construímos a nossa casa comum onde voltamos sempre, ainda que viajemos muito.
É preciso mantermos a porta da casa aberta, pode entrar gente que não interessa, mas no meio da multidão há sempre tesouros escondidos que enriquecerão a nossa vida.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Morte

Às vezes a morte passa-nos perto, sentimos o seu bafo... Arrepiamo-nos, pensamos que ela anda sempre por perto, embora não nos lembremos dela, embora ela seja a única coisa certa que temos ao nascer.
No trajecto diário um acidente. Um morto. O determinante está mal utilizado. Não é um morto indefinido. É uma jovem, a Liliana. Conheço-a desde pequena, conheço os pais, os avós.Hoje a tragédia caiu em casa alheia, mas foi suficientemente perto para pensar se tivesse sido na minha. Para pensar que aqueles pais hoje, ao deitarem já não terão a sua menina, nem no próximo Natal...
"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida." Séneca